Onde esta a deficiência?

Matheus_Rocha

Para explicar um dos dias mais difíceis de minha vida, tenho que retroceder um pouco. Na adolescência tive um diagnóstico de ovário policístico sem muitas explicações, já que minha queixa era apenas o aumento de peso.
 
Quando casei, aos 24 anos, nos exames rotineiros soube que talvez tivesse dificuldade para engravidar. Aos 27 anos achei que era hora de pensar em tratamento, porque, embora fizéssemos tentativas, nada acontecia.

Procuramos um especialista e começamos um tratamento que durou quase dois anos, com muito controle de temperatura, ecografias, medicação. Neste tempo, o médico virou um amigo. Quando nos deu a notícia da primeira gravidez, estava quase tão feliz quanto nós.
 
Com 29 anos tive minha primeira filha, a qual, ao completar um ano não quis mais mamar no peito (sim, ela ainda mamava no peito!). Resolvi voltar ao especialista para questionar se deveria retomar o tratamento, uma vez que já estava com 30 anos (como o tempo passa rápido!).

Após um exame rápido, a pergunta: “Pra quê tratamento, se já estás grávida?”. Fiquei naquele misto “não sei se rio ou se choro”, pura emoção e realização. O propósito desde o início do tratamento eram dois filhos. Pronto! Tudo completo agora!
 
Gestação maravilhosa, aliás, igualzinha à primeira. No início do oitavo mês, dores, contrações, pavor total. Por muitos motivos: estava no oitavo mês de uma gestação sem qualquer intercorrência; não apresentava nenhum sintoma até o dia anterior; meu obstetra estava de férias; todo o meu acompanhamento foi realizado em Porto Alegre (RS) e eu estava em Bom Jesus (interior do interior do estado); o que fazer com minha filha de 1a8m? Onde deixá-la?

Ligamos para o colega de meu obstetra, com quem já tínhamos conversado algumas vezes em entradas e saídas das consultas. Ele nos orientou e pediu que fossemos para Porto Alegre, que nos esperaria no hospital para me examinar. Quatro horas de viagem. Metade em estrada de chão. E eu com contrações…
 
Passamos em Caxias do Sul para deixar nossa filha com a avó. Não lembro se disse alguma coisa para ela. Chegamos ao hospital em Porto Alegre, onde o médico já nos esperava. Realizou os exames que achava necessários e disse: “Não dá para esperar nada, o parto vai ser agora!”
 
De novo o pavor! A essa altura nós sabíamos que alguma coisa estava fora dos nossos planos. E quando a gente acha que nada mais pode dar errado… Descolamento de placenta, hemorragia, cesárea de urgência.
 
Foi relativamente rápido, o Matheus nasceu bem, chorou logo, mas o pediatra o levou da sala, não me mostrou. Pensei: “Como ele é prematuro, vai ter que ser examinado. Tudo bem!”
 
Um bom tempo depois, o pediatra voltou com meu marido. Nem o pediatra, nem o obstetra conseguiram dar suporte à ele e “jogaram” a informação de que precisariam de autorização para realizar exames adicionais, porque suspeitavam que o Matheus tivesse síndrome de Down (SD). E, ao voltarem à sala de parto, onde eu estava sendo suturada, “jogaram” então a informação para mim. E foi isso, saíram com a autorização assinada. Fui para a sala de recuperação em choque. Falavam comigo, eu respondia, mas não sentia nada.
 
Talvez achando que alguma pressão me faria reagir, o obstetra falou: ” Que paulada, hein? Como é que o seu médico não fez uma investigação?” Não consegui responder. Continuava sem sentir NADA.
 
Oito horas depois fui para o quarto, e, em seguida, chegou o Matheus. Corado, “atento”, com fome. Pegou o seio no ato e mamou com vontade. Foi quando “acordei”. Sou psicóloga e trabalhava em uma APAE. Olhando para o Matheus, pensei: “Se eu falo para as mães da importância do vínculo, o que eu tenho que fazer?”
 
As pessoas começaram a chegar e ligar, a maioria sem saber o que fazer ou dizer. Chorei muito. Meu obstetra, que estava de férias, soube da situação, pegou um avião e voltou a Porto Alegre. Graças a Deus! Foi a pessoa que conseguiu me olhar e me ouvir.
Meu marido é um “parceirão”, e nesses três dias de hospital não foi diferente, me permitindo viver todos os sentimentos daquele momento. Saímos do hospital e nesse mesmo dia fomos para o Centro Lydia Corat, um centro especializado em Transtornos do Desenvolvimento, que tem uma equipe fantástica que nos acolheu (a todos, mãe, pai, mana, avó), ouvindo e orientando em nossas diferentes necessidades.
 
A esse ponto, daria para perguntar: um dos dias mais difíceis foi o do nascimento do Matheus? A resposta é simples: CLARO QUE NÃO! O difícil foi ser obrigada a conviver com a falta de sensibilidade de profissionais da saúde.
 
E para não deixar dúvidas desta falta de tato, na primeira consulta com o pediatra, um colega dele que passava pela sala de espera nos olhou e disse: “Vocês sabem que ele vai ser dependente a vida inteira, né?”.
 
Ao longo dos 22 anos de vida do Matheus, muitas vezes tive vontade de encontrar esses profissionais e mostrar a pessoa completa, feliz e o mais independente possível. Mas sempre achei que eles não merecem! O Matheus é um cidadão que trabalha, estuda, faz atividades físicas e é faixa preta em Taekwondo, com o qual aprendeu a fazer o SEU melhor, todos os dias!
 
Tânia Rocha
Mãe do Matheus Rocha (de 22 anos) e Nicole

2 Responses to Onde esta a deficiência?

  1. Idalina disse:

    Que lindo! Tenho vontade de conhecer o Matheus!!!

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